O
desejo de transformação do corpo é algo crescente e propagador. Antes, era
difícil ir a um lugar de respeito e ver pessoas com certos objetos ou marcas
sobre o corpo. Hoje é difícil não vê-los. Embora seja um tema antigo, não
encontramos muitas literaturas morais sobre o tema. Por isso, decidi publicar
esse artigo esperando contribuir um pouco para sua reflexão e discussão,
considerando a fé da Igreja como ponto de partida.
O
princípio para o juízo desses elementos está no zelo pelo corpo. Independente
dos movimentos que supervalorizam ou desprezam o corpo, sempre foi doutrina
católica o cuidado dele como sacrário, morada da Trindade. Sendo o corpo templo
do Espírito Santo, o seu dono tem o dever de cuidar do mesmo conforme a
dignidade daquele que guarda.
O
Catecismo trata do tema quando fala do quinto mandamento (cf. CIC 2288-2291;
2297). Se cuidar do corpo significa conservar a vida e nenhum homem tem direito
de pô-la fim, com muita razão a Igreja rechaça aqueles que prejudicam sua saúde
ou a põem em risco sem justo motivo. Pelo mesmo princípio, a Igreja ainda
ensina que mutilar o corpo, senão para conservar a saúde, é uma ofensa a Deus.
Um
outro elemento, que é muito difícil de avaliar, que entra nessa discussão, é a
influência cultural, que é um patrimônio de um povo. Atualmente, sofremos a
influência da ideologia neopagã, que valoriza a vida tribal em detrimento dos
progressos alcançados por cada cultura. Os seus militantes pregam a cultura
natural dos povos, ou seja, que cada povo deve viver as suas características
primitivas e não deve sofrer influência de outros povos. Essa mesma ideia
compreende que não existe valor maior em uma cultura que em outra; que todas as
culturas são igualmente evoluídas; que a cultura primitiva é pura. Isso é um
grande erro. Um povo pode promover sua cultura abrindo mão de elementos
desumanizantes e assumindo outros que garantem o seu progresso, mesmo que
adquiram de povos externos. A cultura, e o que ela carrega consigo, portanto,
deve ser julgada, visando a verdade.
Retomando
a questão do zelo do corpo, apresento um primeiro elemento agressivo ao corpo:
o alargador. O seu uso proporciona uma deformação em um órgão do corpo -
a orelha - e não traz consigo nenhum bem para saúde. Por isso, podemos afirmar,
sem dificuldades, que o uso e incentivo do mesmo configuram, por ser uma
mutilação, um pecado.
Para
o piercing, aplico a ligação à cultura tribal. O Pe. Paulo Ricardo nos
indicou uma importante ligação à sexualização de algumas regiões do corpo que
não o são inicialmente. Quero abordar outra ótica, que já mencionamos: a do
tribalismo. Quem usa o piercing, de modo direto ou indireto, liga-se a uma
tribo, um grupo que não assume a característica cristã. É como se dissesse: “eu
pertenço a essa tribo”! Além disso, em alguns casos o uso do piercing contribui
para aquisição de doenças e, por isso, o seu uso torna-se condenável.
Quanto
à tatuagem, não é muito diferente. A tatuagem sempre possibilita a
aquisição de doenças (por esse motivo, em certo período, o tatuado fica
impedido de fazer doação de sangue) e também está ligado ao movimento tribal.
Portanto, se aplica o mesmo que dissemos para os outros dois elementos. Embora
o catecismo não fale nada desses três itens, o YOUCAT nos ajuda a fazer uma aplicação
para o caso das tatuagens. Quando o Catecismo dos jovens fala do quinto
mandamento e do corpo (como fizemos aqui), apresenta o caso de pessoas que
fazem “incisões¹” contra o próprio corpo. É certo que o catecismo está tratando
dos que tem um problema psicológico, mas o mesmo pode ser dito para os que
querem fazer cortes a fim de criar uma tatuagem: “não existe um direito humano
a destruir o próprio corpo recebido de Deus”. Ainda que o desenho seja cristão, o problema não está no conteúdo da tatuagem, mas nela mesma.
“Acciones autodestructivas contra el próprio cuerpo
(“incisiones”, etc) son en la mayoría de los casos reacciones psíquicas ante
experiencias de abandono y de falta de amor; por eso, en primer lugar, reclaman
todo nuestro amor a estas personas. No obstante, en este marco de cariño debe
quedar claro que no existe un derecho humano a destruir el próprio cuerpo
recibido de Dios”
(YOUCAT, q. 387).
Mais
uma vez, nossa intenção é incitar a reflexão. Poderíamos responder a tudo isso
de forma muito simples: isso não coaduna com a tradição cristã. No entanto, não
seria suficiente para as mentes mais críticas. O bem fundamental que desejamos
alcançar é a nossa salvação. Essas coisas, por um momento, são contrárias à
nossa fé, por outro são indevidos, simplesmente. Acima de tudo, são
desnecessários e, se podem ser motivo de contradição, vale muito mais assumir a
cruz de Cristo e renuncia-las.
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¹ A tradução portuguesa usa o
termo “riscos”.

