quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Um caminho de retorno

Conforme vivemos a caminhada cristã, deparamo-nos com diversas realidades e situações que nos permitem pensar. Entre elas, estão as inúmeras pessoas que migram de um estado de segurança espiritual ao seu oposto, quando não chegam à apostasia. Muitas delas se acomodam, pensando que está melhor assim ou que não têm força para voltar ao que era antes. Por isso, pensando desde o pecado original, precisamos entender o que deve motivar o homem e a mulher em tal estado a retomar o caminho com confiança e fé naquele que é o motivo de toda a existência.

A condição original do homem era de plena comunhão com Deus, a qual foi rompida com o pecado dos nossos primeiros pais. A consequência dele está relatada em Gênesis 3: a terra foi amaldiçoada, o homem passou a tirar seu sustento com o suor do rosto, a mulher teve que sofrer para gestar. Em outras palavras, o pecado trouxe o sofrimento ao homem.

"Então o Senhor Deus disse à serpente:
'Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos;
andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. 
Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. 
Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar'. 
Disse também à mulher: 'Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; 
darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio'.
E disse em seguida ao homem:
'Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto
da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. 
Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida.
Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. 
Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado;
porque és pó, e pó te hás de tornar'" (Gn 3,14-19).

Não obstante, Deus, em seu supremo amor, quis conceder ao homem uma condição superior àquela original. Ao enviar seu Filho amado para regenerar o homem, concedeu-lhe mais que o retorno ao estado anterior, mas uma condição superior e mais digna.

"A graça inefável de Cristo deu-nos bens superiores
aos que a inveja do demônio nos tinha tirado".
(São Leão Magno)
"Nada se opõe a que a natureza humana tenha sido destinada
 a um fim mais alto depois do pecado. 
Efetivamente, Deus permite que os males aconteçam para deles tirar um bem maior.
Daí a palavra de São Paulo: 'onde abundou o pecado, superabundou a graça' (Rm 5, 20).
Por isso, na bênção do círio pascal canta-se:
'Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor'!"
(Santo Tomás de Aquino)

No entanto, a oferta de Cristo não tirou a concupiscência*, que conduz ao pecado, do homem. A condição do homem que peca é similar àquela imediatamente posterior ao pecado de Adão, pois também aqui o homem perde totalmente seu vínculo com Deus. Essa separação não se dá devido à ira divina, mas da escolha livre do homem. Este perde, aqui, todo o vínculo com Aquele.


Ainda hoje, algumas pessoas experimentam de tal forma o pecado que perdem a semelhança divina alcançada por ação da graça. Quando um fiel vive uma vida santa, os que convivem com ele percebem certa similitude com Deus. Entretanto, vemos alguns que perdem toda ela com o pecado, sentindo-se, até, destruídos.

Cristo concede a esses
seus filhos um reencontro com Ele de uma forma também similar ao homem no estado posterior ao pecado original. Ou seja, este homem pecador também tem acesso a uma condição superior à anterior. Portanto, todos aqueles que se encontram destruídos pelo pecado devem saber que o Senhor deseja puxá-los novamente para junto de si e dar-lhes muito mais do que tiveram antes. E como se alcança isso? Pela busca da virtude e da confiança no amor de Deus. Pela virtude, desenvolve-se a vida na bondade, que agrada ao Senhor. Pela confiança em Deus, busca-se os sacramentos e recebe uma força que vem d'Ele.

Este
é um bom caminho de reencontro com o Senhor. Se nos percebemos longe do Senhor, presos no pecado como uma abelha ao mel, saibamos que o Senhor quer nos retirar dessa prisão e nos limpar novamente. Esforcemo-nos por nossa parte e corramos ao encontro da graça divina, pelos sacramentos. Encontraremos, assim, uma trajetória segura de retorno ao coração de Deus.
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* Concupiscência: Inclinação "natural" ao pecado, consequente do pecado original.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um novo tempo...

Junto com tantos projetos trazidos pelas pessoas que projetam o novo ano que inicia, desejo apresentar a nova fase deste blog. Na primeira versão, dizia que não sabíamos onde seríamos conduzidos. Hoje posso dizer que tenho um pouco mais de ciência do quanto o blog pode contribuir para a formação das consciências. Não é um serviço que sempre atinja as massas, mas sempre retorna com frutos.

O blog surgiu como um desejo de compartilhar ideias e contribuir com a formação de seus leitores. Nunca foi minha ideia ter um blog muito acessado, mas, acessado por algumas pessoas, contribuísse na reflexão e formação dos mesmos.

Este é um novo tempo, marcado por novidades no layout e nos objetivos do blog. Permanece a ideia inicial de ser um consolo ao coração de Nosso Senhor e Nossa Senhora, mas, agora, quero que isso ocorra com objetivos mais definidos. Tracei, portanto, três categorias: formação, opinião e comentário. Em um primeiro momento, só lançarei a segunda e, por isso, explicarei esta inicialmente. Futuramente, é meu interesse lançar as outras categorias. Ao fazer isso, trarei uma explicação juntamente.

A "opinião" trará artigos de filosofia, teologia, temas de interesse público e derivados dos primeiros. Chama-se assim porque trará ideias mais pessoais, enquanto as outras menos. Será publicado, inicialmente, sempre nas primeiras quartas-feiras de cada mês. Espero que assim, retome contato com o público que, de certa forma, perdi ao deixá-lo desatualizado por um ano.

Agradeço o auxílio e ajuda de meus amigos críticos e revisores. Eles sempre me auxiliam e contribuem para que esse blog atinja o seu objetivo. Esperamos atingi-los ainda este ano, mas entregamos tudo nas mãos do bom Deus, que sempre vem em auxilio de nossa fraqueza. O antigo e novo leitor tem toda a liberdade de participar da discussão dos temas, sendo considerado todo argumento, desde que não ofenda alguém, não seja anônimo ou siga as regras lógicas do raciocínio.

Esperançoso com o sucesso, tudo depositamos nas Santas Mãos de Deus.


Sexta-feira, 04 de janeiro de 2013

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tendências que deixam a marca "V"

Algo que está em grande evidência atualmente em nossa sociedade é o movimento de "homossexualização" do pensamento, da arte e da moda. Não é necessário ter os sentidos aguçados para perceber isso, mas, muitas vezes, ele surge camuflado, então é necessário que outros nos abram a visão. Tentaremos apontar aqui um dos modos que essa corrente tenta criar a cultura gay.

Olhando para os acontecimentos do século XX, observaremos todo o processo que desencadeou nas manifestações públicas homossexuais na década de 1990 e neste início do século XXI. Eles são muito criativos e têm projetos muito bem direcionados, trabalhando de forma variada com o seu público diverso. Desejo salientar um elemento, que me parece pouco perceptível às pessoas, inserido há pouco tempo no campo da moda e que já adquiriu grande espaço: a "gola V" masculina.
Desde que surgiu a chamada “gola V”, percebi claramente a homossexualização presente nela. Infelizmente, não sei onde foi sua origem e nem a intenção de seu(sua) idealizador(a). Mas é visível a semelhança dessa camisa com as roupas femininas, que possuem esse corte. Obviamente, nem todos os que a vestem o fazem por certo gosto da feminilidade, ao contrário, muitos exaltam sua masculinidade com ela. No entanto, com um olhar mais amplo, as pessoas que a usam deixam isso mais evidente ainda mais se já têm uma postura gay.

Acredito que poucos vão concordar comigo, mas quis esboçar essa opinião depois que vi uma camisa de um evento católico com esse modelo. Por mais que não concordem, espero que, ao menos, faça refletir aos coordenadores de encontros/movimentos/eventos sobre a inserção da moda em seus sinais. Gostaria de não vê-la mais com estampas de atividades religiosas, mas não vou aplicar tamanha esperança para não me frustrar. Sei que, daqui há um tempo, esse modelo pode deixar de ter as características que apresento, mas, atualmente, apresenta e estou certo disso. Espero que nesse ambiente, melhore.

domingo, 28 de agosto de 2011

Audiência do Papa sobre a meditação

Devido a falta de tempo para escrever, proponho a leitura da catequese do papa sobre meditação.

O homem em oração (10)
A meditação
Amados irmãos e irmãs
Ainda estamos na luz da solenidade da Assunção, que — como eu disse — é uma Festa da esperança. Maria chegou ao Paraíso e este é o nosso destino: todos podemos chegar ao Paraíso. A questão é: como. Maria conseguiu; Ela — reza o Evangelho — é «Aquela que acreditou que se haviam de cumprir as coisas que o Senhor lhe disse» (cf. Lc 1, 45). Portanto Maria acreditou, confiou em Deus, entrou com a sua vontade naquela do Senhor e assim pôs-se precisamente na via directíssima, no caminho rumo ao Paraíso. Crer, confiar no Senhor, entrar na sua vontade: este é o rumo essencial.
Hoje não gostaria de falar sobre todo este caminho da fé, mas só sobre um pequeno aspecto da vida de oração, que é a vida do contacto com Deus, ou seja, sobre a meditação. E o que é meditação? Quer dizer «fazer memória» do que Deus fez e não esquecer os seus numerosos benefícios (cf. Sl 103, 2b). Muitas vezes vemos só as coisas negativas; temos que conservar na nossa memória também as coisas positivas, os dons que Deus nos concedeu, prestar atenção aos sinais positivos que vêm de Deus e fazer memória dos mesmos. Portanto, falamos de um tipo de prece que na tradição cristã é chamada «oração mental». Em geral conhecemos a oração com palavras, naturalmente também a mente e o coração devem estar presentes nesta oração, mas falemos hoje de uma meditação que não é de palavras, mas um contacto da nossa mente com o coração de Deus. E aqui Maria é um modelo muito real. O evangelista Lucas repete várias vezes que Maria «conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração» (2, 19; cf. 2, 51b). Guardiã que não esquece, Ela está atenta a tudo o que o Senhor lhe disse e fez, e medita, isto é, entra em contacto com várias realidades, aprofundando-as no seu coração.
Portanto, Aquela que «acreditou» no anúncio do Anjo fez-se instrumento para que a Palavra eterna do Altíssimo pudesse encarnar, e acolheu também no seu coração o prodígio admirável daquele nascimento humano-divino, meditou-o, ponderou com a reflexão sobre o que Deus realizava nela, para acolher a vontade divina na sua vida e para lhe corresponder. O mistério da encarnação do Filho de Deus e da maternidade de Maria é tão grande que exige um processo de interiorização, e não é só algo de físico que Deus realiza nela, mas algo que requer uma interiorização da parte de Maria, que procura aprofundar a sua compreensão, interpretar o seu sentido e entender as suas influências e implicações. Assim, dia após dia, no silêncio da vida diária, Maria continuou a conservar no seu coração os sucessivos eventos admiráveis dos quais foi testemunha, até à prova extrema da Cruz e à alegria da Ressurreição. Maria viveu plenamente a sua existência, os seus deveres quotidianos, a sua missão de Mãe, mas soube manter em si um espaço interior para meditar sobre a palavras e a vontade de Deus, sobre o que se realizava nela, sobre os mistérios da vida do seu Filho.
No nosso tempo vivemos absorvidos por numerosas actividades e compromissos, preocupações e problemas; muitas vezes tendemos a preencher todos os espaços do dia, sem ter um momento para parar, meditar e alimentar a vida espiritual, o contacto com Deus. Maria ensina-nos como é necessário encontrar nos nossos dias, com todas as actividades, momentos para nos recolhermos em silêncio e meditar sobre aquilo que o Senhor nos quer ensinar, sobre o modo como está presente e age no mundo e na nossa vida: sermos capazes de parar um momento e de meditar. Santo Agostinho compara a meditação sobre os mistérios de Deus com a assimilação do alimento, e usa um verbo que se repete em toda a tradição cristã: «ruminar»; isto é, os mistérios de Deus devem ressoar continuamente em nós mesmos, para que se tornem familiares, orientem a nossa vida e nos nutram, como acontece com o alimento necessário para nos sustentarmos. E são Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura, diz que «devem ser sempre ruminadas para poderem ser fixadas com aplicação ardente do espírito» (Coll. In Hex, ed. Quaracchi 1934, p. 218). Portanto, meditar quer dizer criar em nós uma situação de recolhimento, de silêncio interior para ponderar, assimilar os mistérios da nossa fé e de quanto Deus realiza em nós; e não só sobre as coisas que vão e vêm. Podemos fazer esta «ruminação» de vários modos, lendo por exemplo um breve trecho da Sagrada Escritura, sobretudo os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos, as Cartas dos Apóstolos, ou então uma página de um autor de espiritualidade que nos aproxima e torna mais presentes as realidades de Deus no nosso hoje, talvez deixando-nos também aconselhar pelo confessor ou pelo director espiritual, ler e meditar sobre o que lemos, ruminando sobre isto, procurando compreendê-lo, entender o que me comunica, o que me diz hoje, abrir a nossa alma àquilo que o Senhor nos quer dizer e ensinar. Também o Santo Rosário é uma prece de meditação: repetindo a Ave-Maria somos convidados a repensar e meditar sobre o Mistério que proclamamos. Mas podemos meditar inclusive sobre alguma experiência espiritual intensa, sobre palavras que nos ficaram gravadas mediante a participação na Eucaristia dominical. Então, vede, há muitos modos de meditar e assim de entrar em contacto com Deus e de nos aproximarmos de Deus e, desta forma, de estar a caminho do Paraíso.
Caros amigos, a constância ao reservar o próprio tempo a Deus é um elemento fundamental para o crescimento espiritual; é o próprio Senhor que nos infundirá o gosto pelos seus mistérios, suas palavras, sua presença e acção, sentindo como é bom quando Deus fala connosco; far-nos-á compreender de modo mais profundo o que deseja de nós. No final, é mesmo esta a finalidade da meditação: entregar-nos cada vez mais nas mãos de Deus, com confiança e amor, certos de que só no cumprimento da sua vontade seremos enfim verdadeiramente felizes.
Bento XVI

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ação de Deus na História Vocacional

No processo de discernimento vocacional, é comum o vocacionado ver-se confuso diante dos diversos caminhos que lhe são viáveis e das incertezas que esse procedimento origina. Contudo, existe algo que ele não pode perder de vista: é Deus quem o chama, o ama e quer fazê-lo feliz. Por isso, o Senhor Deus deve conduzir o seu discernimento. Mas de que modo?

Antes de nascermos, Deus já traçou um plano de salvação para cada um. Assim Ele falou ao profeta Jeremias: "Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações" (Jr 1,5).

No entanto, nós só tomamos conhecimento desse chamado conforme amadurecemos na vida e na intimidade com Deus. O convite do Senhor é apresentado na nossa história pessoal: "Vem e segue-me" (Mt 29, 21). Muitas vezes, estamos cegos, surdos, apegados às coisas deste mundo e não ouvimos o Senhor que nos chama. Entretanto, em um momento, o seu chamado nos estremece. É o despertar vocacional!

As palavras ouvidas no interior incomodam e exigem uma resposta. Muitas dúvidas surgem e O questionamos como São Paulo: "Senhor, que queres que eu faça"? (At 9,6). Daí, devemos buscar auxílio de quem já passou por esse caminho, dos sacerdotes, dos Serviços de Animação Vocacional (SAV), das Pastorais Vocacionais (PV) e dos Centros de Orientação Vocacional (sugiro o CAOV).

Neste processo de discernimento, muitos elementos nos serão apresentados, entre eles, a análise da história pessoal. Isto consiste em olhar para o passado e identificar como Deus agia em cada situação da vida. Iniciando pela análise do que precedeu o nascimento (formação da família, doenças, tentativas de aborto, entre tantas realidades específicas), passando pela criação, traumas, pecados e sucessos, devemos identificar onde e como Deus agiu em nossa história. Mesmo nas derrotas, entender como Deus manifestou o Seu amor.

A pergunta que devemos fazer é: "em tudo o que já me aconteceu, como Deus agia? De que maneira Ele me conduziu até aqui? Nas mais diversas situações, em que direção e com que proposta o Senhor orientou"? Deste modo, o vocacionado pode dar passos mais firmes em direção àquilo que Deus planejou para sua vida.

Não é um processo simples, no entanto é necessário, principalmente se há traumas na história. Precisamos passar por um processo de cura interior, descobrimento do amor de Deus e de seu plano de salvação. Deste modo, cresceremos no autoconhecimento e no entendimento da vontade de Deus.